APTTB: Prevenção da Exposição das Crianças ao Fumo Ambiental do Tabaco

24 de Março de 2010 / 2 Comentários Bookmark and Share

 

Contributo enviado por José Precioso, Associação para a Prevenção e Tratamento do Tabagismo de Braga, 11/03/2010

nao fumarA exposição das crianças ao Fumo Ambiental do Tabaco (FAT) está associada a uma série de problemas para a sua saúde que vão desde tosse, pieira e dispneia, até um maior risco de infecções agudas das vias aéreas inferiores (bronquiolite e pneumonia), infecções respiratórias de repetição, bem como indução e exacerbação de asma (United States Department of Health and Human Services, 2006).

Apesar da gravidade para a saúde das crianças, os estudos mostram que existe uma elevada prevalência de crianças expostas ao FAT. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estimava, em 1999, que cerca de metade das crianças existentes no Mundo (700 milhões), respiravam ar contaminado pelo fumo do tabaco, especialmente nas suas casas (OMS, 1999).

Os principais responsáveis pela exposição da criança ao fumo ambiental do tabaco no domicílio são os pais.

Alguns estudos realizados em Portugal revelaram que elevadas percentagens de crianças (entre os 35 e os 40%) estavam expostas diária ou ocasionalmente ao fumo passivo, pelo facto de os pais ou irmãos/ãs fumarem em casa (Precioso,  Calheiros, & Macedo, 2005). Esta realidade mostra a necessidade de elaborar e implementar programas dirigidos, sobretudo, aos pais/mães das crianças, com o objectivo de prevenir esta exposição.

A via mais eficaz de proteger as crianças da exposição ao fumo passivo no domicílio é promover a cessação do tabagismo nos pais ou, pelo menos, sensibilizá-los para não fumarem em casa. Os pais devem ser o “alvo” principal das acções de prevenção e tratamento do tabagismo.

É indispensável que os médicos de várias especialidades (médicos de família, médicos de trabalho, cardiologistas, pneumologistas, obstetras, pediatras), bem como enfermeiros, psicólogos e profissionais de saúde, em geral, se envolvam no tratamento da dependência tabágica, como já o fazem relativamente ao controlo de outros factores de risco para a saúde (Ministério da Saúde, 2002).

No caso concreto das crianças, os pediatras devem questionar os pais sobre os hábitos tabágicos, o consumo de tabaco no domicílio e recomendar aos/às fumadores/as que parem de fumar e sobretudo que não fumem em casa, pois é uma forma de infligir maus tratos à criança.

A escola tem também um papel importante na prevenção do consumo de tabaco pelos pais, sobretudo no que se refere ao consumo domiciliário. A mensagem a enviar aos pais é a de que não devem fumar, pelo menos na presença dos filhos, que jamais o devem fazer em casa pelos prejuízos que causam aos conviventes, e às crianças em particular, e que devem ter uma atitude negativa em relação ao possível consumo pelos filhos. É importante também que os acompanhem nas suas actividades e que controlem o dinheiro que lhes dão, pois vários estudos indicam a existência de uma relação entre disponibilidade de dinheiro e consumo de tabaco, em adolescentes. Esta mensagem pode ser passada igualmente pelos próprios alunos (filhos ou educandos) através do seu envolvimento em campanhas organizadas na escola, por exemplo no âmbito da disciplina de Formação Cívica ou na Área de Projecto. Esta é também uma forma de ensinar os alunos a participar na vida social e comunitária.

As Associações de Pais devem ajudar a escola nos seus esforços preventivos organizando jornadas de sensibilização para os pais/encarregados de educação.

O Programa Domicílios Sem Fumo, desenvolvido pela Universidade do Minho e pela Associação para a Prevenção e Tratamento do Tabagismo de Braga, terá sido eficaz em prevenir o consumo dos pais e outros conviventes em casa, tendo por isso ajudado a reduzir a prevalência de crianças expostas ao fumo ambiental do tabaco em cerca de 10% (Precioso, Samorinha, Calheiros, Macedo, Antunes, & Campos, 2010).

O Programa Domicílios Sem fumo é promissor no que respeita à protecção das crianças no domicílio. Tratando-se de um programa simples e fácil de implementar, deve ser melhorado com vista a uma implementação generalizada.

José Precioso1, Manuel Macedo2, Catarina Samorinha3, Henedina Antunes4 e Hugo Campos5

 

  1. Docente e investigador na Universidade do Minho
  2. Médico pneumologista no Hospital de S. Marcos- Braga
  3. Psicóloga e investigadora na Universidade do Minho
  4. Médica pediatra no Hospital de S. Marcos- Braga
  5. Enfermeiro e mestrando na Universidade do Minho

Referências:

  • Ministério da Saúde (2002). Tratamento do Uso e da Dependência do Tabaco: Normas de actuação clínica. Lisboa: Ministério da Saúde.
  • OMS (1999). International consultation on environmental tobacco smoke and child health. Retirado da internet em 02-11-2007, http://www.who.int/tobacco/research/en/ ets_report.pdf.
  • Precioso, J., Calheiros, J., & Macedo, M. (2005). Exposición de niños a la contaminación ambiental por humo del tabaco en el domicilio. Un estudio transversal en Portugal. Prevención del Tabaquismo, 7(3), 85 – 90.
  • Precioso, J., Samorinha, C., Calheiros, J., Macedo, M., Antunes, H., & Campos, H. (2010). Exposição das crianças ao fumo ambiental do tabaco (FAT). Avaliação de uma intervenção preventiva. Revista Portuguesa de Pneumologia, 1, 57-72. (Exposição das crianças ao fumo ambiental do tabaco – Avaliação de uma intervenção preventiva)
  • USDHHS (2006). The Health Consequences of Involuntary Exposure to Tobacco Smoke: A Report of the Surgeon General. Atlanta, GA : U.S. Department of Health and Human Services, Centers for Disease Control and Prevention, Coordinating Center for Health Promotion, National Center for Chronic Disease Prevention and Health Promotion, Office on Smoking and Health. Retirado da internet em 12-07-2007, http://www.cdc.gov/tobacco/data_statistics/sgr/sgr_2006/index.htm

2 comentários sobre “APTTB: Prevenção da Exposição das Crianças ao Fumo Ambiental do Tabaco

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  1. Com os meus cumprimentos aos autores, recomendo a leitura de um artigo publicado em Portugal em 2007, realizado por médicos, então alunos de 6º ano de medicina da UM e que deveria / poderia ter sido referido no presente texto, dado tratar-se de um estudo realizado no nosso País e em que se quantifica e relaciona a função respiratória das crianças com a exposição doméstica ao fumo de tabaco.

    Bulhões C, Nogueira-Silva C, Ferreira D, Magalhães MJ, Peixoto V. Análise da exposição tabágica no domicílio e suas repercussões respiratórias em crianças do ensino básico da cidade de Braga. Rev Port Clin Geral 2007;23:673-84. http://www.apmcg.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=33568&artId=180

  2. A prevenção é uma das ferramentas mais importantes para incentivar estilos de vida saudável, neste momento a Legislação abrange espaços públicos, sendo importante estimular os encarregados de Educação a não fumarem em casa , podendo ser as crianças um dos veículos privilegiados de informação e ao mesmo tempo de sensibilização dos adultos para esta problemática, podendo assim obter-se ganhos ao nível da saúde pública.

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