Opinião: Uma Oportunidade para Combater o Desperdício

6 de Maio de 2010 / Sem Comentários Bookmark and Share

Contributo enviado por Celeste Iong, 28/04/2010

opiniaoO Atlas do Plano Nacional de Saúde, lançado a Março de 2010 no 3º Fórum Nacional de Saúde, dá conta do movimento tendencialmente crescente que caracteriza a curva da despesa nacional em Saúde, desde 1979. De lá para cá, Portugal aumentou em 5 pontos percentuais a proporção da despesa em saúde no PIB, que actualmente se situa em 9,9%. Portugal obtém assim o 8ºlugar na lista de países da OCDE que mais gasta em Saúde (em proporção do PIB). Estas estatísticas quase que nos forçam a fazer comparações entre o Sistema Nacional de Saúde e os sistemas de países como o Dinamarca, Austrália ou Finlândia, que gastam bem menos que nós. Porque claro, como é de consenso generalizado, mais importante do que o que se gasta é a forma como se gasta.

Nos hospitais, centros de saúde e outros prestadores de cuidados de saúde, à semelhança do que acontece na maioria das empresas, cometem-se desperdícios que levam a um aumento generalizado de custos e à ineficiência do sistema. Em Portugal, ainda se está por conhecer quanto é que da despesa total em saúde, é efectivamente um gasto ou um investimento.

Na saúde, poderíamos definir “desperdício” como o gasto que poderia ser evitado sem prejuízo da qualidade do serviço prestado ao utente. Um estudo realizado pela PricewaterhouseCoopers (The Price of Excess, Health Research Institute) calculou que o desperdício anual do sistema de saúde dos EUA excede os $1,2 biliões, representando cerca de metade do custo total nacional em saúde. Em Portugal, um estudo recente promovido pela Associação Nacional de Farmácias quantificava o desperdício de medicamentos no ambulatório em €4,44 por cada medicamente dispensado, por motivos de inadequação da embalagem ao tempo de tratamento necessário e/ou por não adesão do doente à terapêutica.

Existem muitas formas de combater o desperdício na saúde. Não se trata só de utilizar na totalidade as horas disponíveis de Bloco Operatório ou de evitar a reexecução de exames porque se demorou demasiado tempo a intervir desde o último exame. Existe desperdício sempre que os cidadãos recorrem ao serviço de urgência por motivos não urgentes. Existe desperdício sempre que se gasta em tratamentos de problemas devidos à obesidade ou ao tabagismo, assumindo que aqueles problemas são evitáveis com hábitos de vida mais saudáveis.

Havendo noção de que existe desperdício no Sistema Nacional de Saúde, porque é que o Plano Nacional de Saúde não deverá igualmente endereçar objectivos para a redução do desperdício e aumento da eficiência dos recursos empregues? Porque não monitorizar o desperdício e a ineficiência através de indicadores como o número de Meios Complementares de Diagnóstico e Terapêutica repetidos por desactualização, a prescrição desnecessária de medicamentos ou sua sobredosagem, ou os gastos em doenças “evitáveis”? No fundo, trata-se de reduzir custos na saúde, para se obter ganhos em saúde.

Celeste Iong

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