Opinião: Doente Oncológico

5 de Maio de 2010 / 4 Comentários Bookmark and Share

Contributo enviado por Alberto Neves de Melo, 12/04/2010

opiniaoGuia dos Direitos e Deveres do Doente Oncológico – Os Profissionais de Saúde, os Doentes, a Família e o Cancro

Um dos principais problemas de saúde que afecta/afectará os seres humanos no século XXI são as doenças crónicas, que persistem, recidivam e requerem terapêuticas personalizadas por longos períodos, caso das doenças oncológicas, das neoplasias malignas, do cancro. O cancro está a aumentar!

O aumento da incidência das neoplasias malignas, do cancro, fenómeno de alcance global e de dimensão cada vez mais preocupante, bem como a grande evolução que se tem verificado nos últimos anos quer a nível dos conhecimentos científicos quer nos meios tecnológicos disponíveis para diagnóstico (mais rápido, seguro e eficaz, com técnicas progressivamente menos invasivas e novos fármacos) e tratamento do cancro, nomeadamente com técnicas menos invasivas e novos fármacos (menos agressivos e muito mais eficazes), veio diversificar e melhorar intensamente a eficácia dos métodos terapêuticos disponíveis para combater este tipo de séria patologia.

O cancro é sem dúvida uma das doenças mais temidas do mundo actual, da ciência médica contemporânea. É essencial continuarmos a considerar na sua origem a influência dos factores ambientais, genéticos (hereditariedade), hábitos de risco e outros….

Felizmente, embora alternem os tempos bons e os tempos maus, para muitos dos doentes oncológicos, o cancro deixou de ser uma doença rapidamente fatal, tornando-se numa doença que dura meses ou anos, com tratamentos complexos e muitas vezes relativamente “agressivos” e/ou tóxicos, cobrando também uma pesada factura de angústia e desespero (aos doentes, à família, aos amigos, e a todas as pessoas empenhadas no seu tratamento).

Nos países desenvolvidos o cancro é a segunda causa de morte logo após as doenças cardiovasculares, representando uma causa importante de morbilidade (presença de sintomas da doença) e mortalidade (percentagem ou taxa de sobrevivência após diagnóstico da doença). Em Portugal assistimos a um aumento da incidência e da mortalidade por cancro. Este aumento deve-se, pelo menos em parte, a uma mudança de estilo de vida, ao incremento dos agentes de acção cancerígena (incluindo maus hábitos dietéticos, nutricionais ou alimentares), ao envelhecimento da população e/ou aumento da sobrevivência (esperança de vida) e a melhores técnicas de diagnóstico, estadiamento e tratamento (para o que contribuem também médicos e/ou profissionais de saúde experientes, com raciocínios clínicos mais rápidos, nomeadamente pelas diversas experiências acumuladas (dispõem de conhecimentos organizados de uma forma mais funcional e eficaz, de competência científico-profissi  onal).

Cuidar [muito] bem do nosso corpo deve ser lema de vida! Temos de fazer mais por tornar correcto e inteligente o nosso comportamento: aquilo que comemos (dieta/alimentação saudável), praticarmos exercício físico regular e moderado, não fumarmos, promovermos o bem-estar e a auto-estima….

A escola desempenha um papel primordial no processo de aquisição de hábitos de vida saudáveis, facilitando a apropriação de competências individuais essenciais para que os jovens participem activamente na promoção da sua saúde. Uma juventude à procura de um futuro mais saudável!

Tempo é vida e/ou qualidade de vida, isto é, não cuidar precocemente do nosso corpo e a demora da resposta na procura do sistema de saúde pode traduzir-se numa maior morbilidade e mortalidade.

Em Portugal o cancro mais frequente [nas mulheres] é o cancro da mama (1 em cada dez mulheres, embora também possa afectar homens), cada vez em gente mais jovem, embora, graças aos tratamentos e diagnóstico mais eficaz a mortalidade tenha diminuído, seguindo-se-lhe o cancro colo-rectal (CCR), o cancro do pulmão (“flagelo do tabaco”, um dos mais graves problemas de saúde pública, com efeitos em toda a população – fumadora e não fumadora), o cancro do estômago e o cancro da próstata [nos homens]. [Não olvidando que existem dezenas de cancros ou tumores malignos, com diferentes epidemiologias, patogenias, tratamentos e prognósticos, afectando as pessoas de maneiras muito diferentes!].

De todos os diagnósticos médicos correntes, o cancro presumivelmente acarreta o maior estigma e está associado ao maior medo do cidadão, do utente da saúde, também do profissional de saúde.

A doença oncológica é um grave problema de saúde pública em Portugal, com custos pesadíssimos, não só económicos, mas também sociais (incluindo os efeitos dos cuidados oncológicos geridos pelos próprios profissionais de saúde (pessoas geralmente muito empenhadas no nosso tratamento e a sofrerem connosco). Esta doença está associada a perdas (incluindo a alta mortalidade que lhe está relacionada) e o seu diagnóstico e tratamento têm consequências psicológicas com importantes repercussões imediatas nos parâmetros da qualidade de tratamento e de vida, no doente, nos seus familiares, amigos e companheiros de trabalho.

Tudo se modifica ou modifica-se de forma extremamente acentuada quando a ignorância, o medo e a negligência (passividade) são vencidos ou ultrapassados. Conhecer a doença, estar informado e devidamente esclarecido é fundamental para a conservação/recuperação da saúde.

Deve ser promovida a intervenção de apoio junto de doentes crónicos e respectivas famílias, visando facilitar a adaptação familiar à doença crónica através da integração das componentes médica, social, psiquiátrica e psicológica. O nosso sistema de saúde ainda está vocacionado sobretudo para a resolução da crise, ou seja, para o tratamento das doenças agudas, Porém, é possível, a partir de uma compreensão multidisciplinar da intervenção junto de doentes crónicos (informação acumulada), alcançar resultados positivos ao nível do bem-estar dos doentes e seus familiares e maximizar a respectiva qualidade de vida.

O avanço dos conhecimentos científicos e tecnológicos, o rastreio regular, o acentuado desenvolvimento de novas capacidades terapêuticas (personalizadas), a abordagem multidisciplinar (com diversas pessoas e variadas competências) – resultado da rigorosa investigação clínica (diagnóstico precoce, diagnóstico clínico mais eficaz, terapêutica (cirurgia (reparadora/conservadora), radioterapia, quimioterapia e terapêutica biológica/química/adjuvante) e do seguimento orientado (terapêutica personalizada) dos doentes oncológicos) –, a personalização do tratamento oncológico (individualização terapêutica para cada doente e cada (sub) tipo de tumor maligno (são dezenas!), permitiram um aumento considerável de sobrevivência do doente oncológico, muitas vezes, este ganho de eficiência traduz-se em situações também menos mutilantes, com efeitos adversos mais atenuados, no alívio do sofrimento (também psicológico e com possíveis distúrbios psiquiátricos) e no aumento da qualidade de vida de muitas pessoas.

O cancro é uma das doenças mais temidas e que provoca perturbações emocionais fortes, de mudança, de incerteza, não só no doente mas também na sua família, necessitando de apoio psicológico e/ou psiquiátrico específico, auxiliando a adaptação à doença, aumentando a adesão terapêutica ao protocolo de tratamento, contribuindo ainda para uma boa relação terapêutica entre a família e os profissionais de saúde que também beneficiam especialmente o próprio doente.

O sucesso da terapêutica oncológica – em termos clínicos – é muitas vezes descrito em termos de TEMPO LIVRE DE DOENÇA (oncológica), TAXA DE SOBREVIVÊNCIA, COMPLICAÇÕES E TOXICIDADE LIMITE.

Porém, a doença oncológica é bem mais complexa: o doente oncológico tem a percepção de todos os eventos ligados ao seu cancro ou tumor maligno, passando estes a assumir um papel central da sua vivência (e dos seus familiares, amigos e companheiros de trabalho e/ou vida quotidiana). A ansiedade, o choque do diagnóstico (o profissional de saúde deve saber – aprender a – anunciar a má notícia, de uma forma acessível ao doente e acompanhante, comunicando-lhes o plano de realizações terapêuticas a curto prazo, deixando o doente com um objectivo para o futuro e com esperança na terapia), a dor, o sentimento de perda, o stress ou angústia das terapêuticas, os tratamentos debilitantes e nem sempre totalmente eficientes, a resistência aos fármacos oncológicos, as restrições ao seu desempenho físico e intelectual, a amnésia, a fadiga ou sensação de cansaço persistente, as limitações nas suas actividades diárias, o mal-estar físico, a reacção das outra  s pessoas, a estigmatização social (também relacionada com a diminuição das actividades sociais do doente), a revolta, o lidar com situações que põem em risco a vida ou que vão diminuir a sua esperança de vida, a dificuldade em retomar a vida normal, o medo da recorrência (recidiva) e o “pavor” de sintomas ligeiros (muitas vezes logo associados a recaída ou agravamento do cancro), as dificuldades financeiras, a dificuldade na manutenção/obtenção de emprego (também pelas frequentes e essenciais visitas aos profissionais de saúde), são parâmetros extremamente relevantes a considerar na efectiva promoção da qualidade de vida, do bem-estar, de um doente oncológico (e da sua família).

O interesse dos médicos em geral, e dos oncologistas em particular, tem vindo a aumentar pela manutenção da qualidade de tratamento e de vida do doente oncológico relacionada com a saúde, considerando-o importante no plano de tratamento do doente oncológico, mas ainda há muito a fazer para que a qualidade de tratamento e de vida do doente com cancro seja de facto uma realidade na prestação de cuidados aos doentes oncológicos (quase sempre incapacitados, com invalidez ou deficiência, com necessidades especiais), contribuindo de uma forma decisiva para a humanização dos cuidados prestados aos doentes oncológicos (tornando-os mais eficientes), pelo promover do seu bem-estar, pela melhoria simultânea, designadamente, dos aspectos físico-funcionais (desempenho físico e funcional, sexual, social, mobilidade, acessibilidade, trabalho, lazer, conseguir realizar actividades diárias que lhe dão prazer, embora reduzindo a natural e acentuada fadiga), psicológicos (auto-estima, bem-estar emocional e mental), sociais (relações e/ou interacções sociais com membros da família, vizinhos, amigos, prestadores de cuidados de saúde), pela equidade ou igualdade social, pelo relacionamento familiar, laborais e económicos (bem-estar económico), pela orientação presente e futura, inclusão ou inserção social.

A preocupação com a não discriminação (directa ou indirecta, manifesta ou subtil), com a autonomia, com a informação, com a mútua participação do doente oncológico (incapacitado, deficiente, em desvantagem, com necessidades especiais), por parte dos prestadores de cuidados de saúde (e/ou das respectivas organizações representativas), com a cooperação empenhada (do Estado e das demais entidades públicas), com a mobilidade, com a solidariedade activa (de todos) e com os direitos dos doentes oncológicos (deficientes, incapacitados, em desvantagem ou pessoas com necessidades especiais) e com os factores psicossociais, é cada vez mais valorizada, também no contexto da obtenção da cura e alívio de sintomas ou prolongamento da vida humana, procurando o bem-estar geral do doente oncológico, tornando-o quotidianamente mais eficiente.

Só é possível curar às vezes, aliviar algumas, mas confortar sempre, sendo perseverantes e diligentes, reunindo forças para resistir aos obstáculos que naturalmente também irão surgindo, exigindo que não desistamos e jamais percamos a convicta esperança!

Para aumentarmos a qualidade de vida do doente oncológico (deficiente, incapacitado, em desvantagem ou com necessidades especiais), temos de o ajudar activamente (ajudando-nos também!), para que após um período de adaptação e/ou readaptação à nova realidade, consiga retomar os seus objectivos ou adaptá-los, para que readquira, no mínimo, um bem-estar geral ou global idêntico ao período anterior à doença, permitindo-lhe o acesso aos bem e serviços essenciais ao longo da vida.

Nem toda a neoplasia maligna é sinal de ausência de cura. A qualidade de vida do doente oncológico relacionada com a saúde pode originar uma sobrevivência significativamente mais longa (designadamente uma maior resistência à ocorrência de toxicidade inaceitável (na terapêutica (personalizada) contínua)).

Ao Estado primacialmente, mas também a todos nós, cidadãos, às entidades públicas, privadas e/ou organizações não governamentais (ONG), compete criar as condições de uma política de prevenção, habilitação, reabilitação e participação da pessoa afectada por doença incapacitante, caso da doença oncológica (regra geral geradora de deficiência, incapacidade, desvantagem, necessidades especiais).

Um dos muitos problemas com que se debatem grande parte dos doentes oncológicos, nomeadamente quando recebem o diagnóstico inicial, entram em quimioterapia e/ou radioterapia, é a forma como receberam a grave notícia [como foi exposto o diagnóstico] e o contexto em que a receberam, o desconhecimento e a falta de informação, ou a informação ser ambígua ou imprecisa, sobre a grave doença crónica que os atingiu e o tratamento e terapêuticas que os vão acompanhar muitas vezes para o resto das suas vidas.

A informação disponível (escrita, em linguagem acessível) e a educação fornecida ao doente oncológico, com cancro, e aos seus familiares mais próximos é muito escassa e/ou está muito dispersa (por vasta legislação ou normas legais e regulamentares dispersas), é ainda muito genérica, básica e dispersa, quando, ao invés, mais grave, não é mesmo nula ou inexistente. As orientações práticas, fundamentadas em evidências, também nas capacidades e experiência clínicas, são fundamentais para o tratamento e cuidados adequados para as pessoas com perturbações do foro oncológico, devolvendo alguma da confiança/segurança perdida. A adaptação dos utentes da saúde ou dos doentes é mais fácil quando se tem acesso claro a informação correcta e bons serviços de apoio. Doente informado é doente prevenido, muito mais seguro!

Por exemplo, muitas portuguesas desconhecerão a radiação aplicada durante a realização de um exame de rastreio do cancro da mama, a mamografia (raio X do tecido mole da mama, o meio mais económico e prático de se realizar o rastreio (numa relação custo/eficácia) (não excluindo o auto-exame (avaliação do peito e/ou de outras partes do corpo pela própria pessoa, em busca de alguma eventual “alteração”)), a ecografia, citologia e histologia, e outras formas de detecção do cancro)). Tal como desconhecerão o direito que têm, consagrado em lei [http://escritosdispersos.blogs.sapo.pt/100834.html], de conhecer a radiação a que cada cidadão é exposto aquando da realização que implique a utilização da mesma, como um simples Raio X ou uma TAC, que poderão “induzir” patologias devido à exposição “descontrolada” a radiações supostamente “desnecessárias” (resultantes de precipitação ou desinformação do profissional de saúde). A mamografia (o rastreio, a partir dos 45 anos de idade, é realizado de dois em dois anos). A utilização de equipamentos capazes de realizar exames de mamografia (que SALVA VIDAS!) utilizando “microdose” (menos de metade da radiação) e alta resolução de imagem (evitando repetições), deveria ser um objectivo nacional, designadamente das pessoas responsáveis pelos programas de rastreio regular do cancro da mama. O cancro da mama é o de maior prevalência na mulher – 1 em cada 9 mulheres vai ter – e um dos mais “fáceis” de tratar quando detectado/diagnosticado de forma precoce [comparativamente com outros tumores sólidos, é o que melhor permite o tratamento de acordo com características específicas da célula tumoral (a personalização do tratamento oncológico, perante os desafios do presente e numa perspectiva de melhorias futuras na sobrevida, passa pela individualização terapêutica para cada doente e cada (sub) tipo de tumor maligno)].

Os profissionais de saúde devem preocupar-se em reduzir a exposição do doente (e deles próprios) à radiação de três tipos de processamento de imagem médica cada vez mais comuns: tomografia computadorizada (TC), estudos de medicina nuclear e fluoroscopia.

Estas três técnicas são as principais responsáveis pela exposição à intensa radiação, designadamente por usarem doses de radiação muito mais elevadas do que outros métodos – como o raio-X padrão, raio-X dental e a mamografia -, aumentando potencialmente o risco de cancro.

A possibilidade de redução da dose de radiação, o aumento da eficiência do processo imagiológico e a aplicação de técnicas de processamento de imagem para melhorar a visualização de processos anatómicos e fisiológicos, deve ser também uma prioridade do profissional de saúde, procurando minimizar os riscos para o cidadão, paciente ou utente da saúde.

Por exemplo, a radiação de uma tomografia computadorizada do abdómen é o equivalente a cerca de 400 radiografias ao tórax. E talvez possa ser antecedida de outros exames também conclusivos mas muito menos “agressivos”!

Para reduzir a exposição à radiação desnecessária, os profissionais de saúde devem adoptar ou padronizar dois princípios: cada processo deve ser progressivo e plenamente justificado e a dose de radiação (no recurso à imagiologia) deve ser a dose mínima necessária. Além disso, é necessário incentivar o diálogo entre os doentes e os seus médicos para reverem os benefícios e os riscos dos tipos de técnica imagiológica utilizada.

Por exemplo, no caso de pacientes mais jovens, é preciso ter presente que a mamografia é um exame que inclui a emissão de radiação ionizante que, quando aplicada de forma excessiva, pode ser nociva à saúde. Por isso, não devemos antecipar a inclusão da mamografia no quotidiano de uma mulher precocemente, caso não tenha histórico familiar ou alterações genéticas que justifiquem o exame.

O mais indicado, por isso, parece-me ser o auto-exame mamário – que deve ser realizado mensalmente, sete dias após o início da menstruação, quando a mama já não está inchada – que pode ser responsável pela detecção de 80% dos tumores.

Por outro lado, os benefícios da tomografia computadorizada, da medicina nuclear e da fluoroscopia são consideráveis, porque conduzem ao diagnóstico precoce da doença, ao planeamento do tratamento e a terapias que ajudam a salvar vidas todos os dias. [o meu cancro (tumor de GIST no intestino delgado) foi detectado numa TAC (no dia 09.05.2008), após sucessivos exames (desde 11.02.2008): endoscopias, colonocospias, vídeo-cápsula endoscópica, ecografia abdominal, suporte transfusional, entre outros].

As consultas, os centros de tratamento, os locais de internamento, os locais onde existem as indispensáveis equipas multidisciplinares e interdisciplinares de cuidadores (Medicina Interna, Oncologista Médico, Enfermeiro Oncológico, Farmacêutico Oncológico, Radioterapeuta e Cirurgião e preferencialmente também por Anatomopatologista, Imagiologista, Especialista da área a discutir (Pneumologia, Gastrenterologia, Ginecologia, Cardiologia, Psiquiatria, e outras especialidades médicas intervenientes), Psicólogo Oncológico, Nutricionista), deveriam ser, por excelência, o local indicado para indicar e prolongar o ensino dos direitos e deveres dos doentes oncológicos. Todos os médicos (profissionais de saúde) deviam ser “educados” com especial atenção para o tratamento oncológico! [A Portaria n.º 84/2010, de 10 de Fevereiro – actualiza o programa de formação da área profissional de especialização de oncologia médica, constante do ANEXO à citada Portaria  n.º 84/2010, de 10 de Fevereiro, da qual faz parte integrante.]

Não é isso que se passa e, muitas vezes, o doente oncológico entra em quimioterapia, radioterapia, terapêutica adjuvante, desconhecendo quase tudo sobre a sua “nova” vida (que “apenas” pretende prolongada com a melhor qualidade possível). Noutros casos, importa igualmente relevar ou distinguir positivamente, a doença oncológica parece ser percebida pelos profissionais de saúde como distinta de outros contextos, no sentido em que as relações que se estabelecem com os doentes oncológicos requerem maior proximidade, envolvimento e intimidade. São casos em que o profissional de saúde também sofre, cria stress (considerado um “flagelo do mundo ocidental” pela OMS), passa por situações emocionais desgastantes, que poderiam ser aliviadas pela riqueza e complexidade da comunicação, da partilha da informação interpessoal (equipa de saúde/doente), envolvendo os doentes oncológicos no processo de tratamento (ressecção cirúrgica, radioterapia, quimiot  erapia, terapêutica hormonal, imunoterapia) mas simultaneamente tentando clarificar dúvidas acerca da doença no sentido de melhor os informar/documentar, em prol da desmistificação do estigma associado à doença oncológica, contribuindo para o sucesso da adesão terapêutica e para a implementação do tratamento médico, diminuindo ou evitando o stress agudo (considerado um “flagelo do mundo ocidental” pela OMS), a depressão e a recusa ou negação da doença no doente oncológico.

É fundamental promover activas campanhas de informação junto dos profissionais de saúde, dos prestadores de serviços clínicos, e da população em geral (folhetos, brochuras, revistas, guias, opúsculos, bibliografia sobre a doença, biblioterapia [literatura de apoio terapêutico], etc.), sobre a necessidade de uma maior e melhor informação, comunicação e sensibilização sobre os direitos e deveres dos doentes oncológicos [ajudando a resolver e a ultrapassar, por exemplo, questões práticas do dia-a-dia], considerando-a uma componente muito relevante no tratamento da doença oncológica, da neoplasia maligna, do cancro, e na promoção da reabilitação (da possível deficiência, incapacidade, desvantagem, necessidade especial, da integridade física e psíquica, da saúde, da dignidade pessoal), da humanização (promovendo a normal relação com os seres humanos e com a humanidade, facilitando a busca de autonomia e permitir que o doente oncológico caminhe com verticalidade, mantenha a sua actividade), da melhoria na bruscamente diminuída qualidade de vida do doente oncológico (normalmente também deficiente ou com necessidades especiais) (ajudando-o a recuperar o equilíbrio perdido, designadamente o controlo metabólico).

De uma forma sucinta, as qualidades pessoais, nossas, interiores, associadas a um bom prognóstico para a recuperação do curso da doença englobam:

  • determinação e vontade optimista, mas prudente (poder para combater a doença e reduzir os efeitos secundários do tratamento; no cancro há dor, tal como há dor na vida (física e emocional);
  • evitamento positivo (negação, minimização da seriedade do cancro, lidar bem com o medo de recorrência da doença e morte);
  • relações fortes e de suporte, não se vitimizar, não fantasiar felicidade (a doença grave, o cancro, causa alguma infelicidade), não falsear nem deturpar o que faz, mas encarar a realidade com intensa esperança e proporcional confiança, mentalizando-se de que nem sempre tudo pode correr bem, mas que futuramente poderá correr melhor (partilhe sentimentos, dúvidas e incertezas com a família, com os amigos e a equipa de saúde);
  • habilidade para lidar eficaz e flexivelmente com o stress (considerado um “flagelo do mundo ocidental” pela OMS), diminuindo os níveis de depressão, ansiedade e, principalmente o stress agudo (causado designadamente pelo dormir mal, ser submetido a ruídos intensos, a pressões em termos laborais e até a uma tremenda competição nas instituições de ensino);
  • criar um estilo de vida saudável e gratificante, abra-se ao amor, aumentando a sua força e descontracção, incluindo não afastar os amigos com permanentes queixas ou monólogos de infelicidade (temos de afastar o substantivo “coitadinho” pelo substantivo “coragem”, pelo adjectivo “corajoso”!);
  • procure fazer o que gosta, com satisfação e alegria;
  • ajude o próximo, partilhe, promova o bem-estar, contribua para uma sociedade mais justa!

Há que encarar o incómodo do tratamento com o objectivo ou numa perspectiva de cura, de aumento de sobrevivência, de uma sobrevivência muito maior e com melhor qualidade de vida. Vamos acreditar em planos concretos e exequíveis, consolidados progressivamente no presente, a médio e a longo prazo.

A publicação de normas legais muitas vezes não se traduz na sua execução! A mudança, a melhoria da prestação dos cuidados de saúde, não depende unicamente de medidas legais.

Muitas das medidas a implementar e/ou a consolidar, tornar exequíveis, não exigem somente leis e verbas suplementares! Fundamental é assegurar uma tenaz vontade política e uma muito rigorosa/parcimoniosa actuação dos serviços públicos, tornando-os efectivamente úteis, necessários e eficazes, promovendo a execução das respectivas atribuições/competências e avaliando os resultados que justificam/justificaram, ou não, a sua criação e manutenção.

É fundamental apostar na formação, na informação, na compreensão e actualização contínuas. Passar da mera expectativa à concretização! No aumento da competência científico-profissional!

Exigir maior e melhor capacidade técnica e empenhamento de todos os agentes envolvidos, privilegiando/especializando os que mais directamente sentem os problemas: os profissionais da saúde, os utentes da saúde, os familiares, os doentes… promovendo condições favoráveis à possível autonomia em detrimento da mútua/eterna dependência!

Existem factores que permitem ajudar o corpo a auto regenerar-se. Ou quando o corpo (sistema imunológico) tem condições, é capaz de estabilizar a sua debilidade, o estado de doença, evitando a sua progressão. Como tal, muitas vezes soluções mesmo muito simples conseguem resolver situações muito complicadas, como as neoplasias malignas, os tumores malignos, os cancros…

Todos temos de repensar os nossos valores e as nossas prioridades. É fundamental vivermos promovendo prioritariamente, em pleno, um sistema imunitário forte, a saúde!

Estilo de vida Saudável e Responsável

Um estilo de vida pouco saudável afecta o aspecto exterior, mas os verdadeiros estragos [“silenciosos”] são, sem dúvida, no interior do nosso corpo!

Alimentação variada, equilibrada e natural (cereais com elevado teor em fibra, legumes, verduras e frutas, ricos em antioxidantes ajudam a neutralizar os químicos que envelhecem os órgãos (ao nível celular); moderando o consumo de carne “vermelha” e peixe; reduzindo rigorosamente o consumo de sal e eliminando o açúcar; não comendo ou reduzindo o consumo de alimentos fumados e/ou que tenham gorduras trans ou ácidos gordos trans (são o resultado de um processamento denominado hidrogenação (fritos empacotados, bolos, bolachas, a maioria das margarinas (com gordura hidrogenada ou parcialmente hidrogenada), doces industrializados, pipocas); não comendo ou reduzindo o consumo de alimentos que contenham gorduras saturadas ou lípidos totais (leite gordo e derivados (queijos, manteiga, natas, alguns iogurtes) carnes gordas e derivados (enchidos, salsichas, bacon), pele de aves (frango, pato, perú), óleo de coco e de palma, chocolate, por exemplo); bebendo água e  sumos não açucarados nem com adoçantes). A microflora intestinal ou “flora microbiana” (“bactérias boas, protectoras”) pode desempenhar um papel importante no reforço do sistema imunitário (que ataca células anormais, incluindo as células cancerígenas) e na prevenção do desenvolvimento de doenças intestinais como a doença inflamatória do intestino e o cancro. Por exemplo, beber um copo de água ao levantar em jejum, além de hidratar o organismo, activa a musculatura do intestino, sobretudo se for água morna, melhorando o seu funcionamento. A gordura monoinsaturada é benéfica, visto que pode ajudar a diminuir os níveis de colesterol no sangue. Este tipo de gordura é o que deve ser consumido em maior quantidade (azeite e azeitonas, frutos oleaginosos (amêndoas, amendoins), sementes de sésamo, abacate, por exemplo). A gordura polinsaturada é também benéfica ao contribuir para a diminuição os níveis de colesterol no sangue (óleo de girassol,  milho, soja, nozes, peixe gordo (sardinhas, salmão, cavala, atum, arenque, por exemplo, de preferência estufados, cozidos, grelhados ou assados no forno).

Por vezes bastam diminutas alterações nos nossos hábitos alimentares e estilo de vida, para e notar substancial diferença no nosso peso, na nossa saúde e na nossa qualidade de vida. As mudanças deverão ser adequadas, progressivas e persistir ao longo da nossa vida, para que os bons resultados continuem regularmente benéficos.

Não fumar (cessação tabágica) (o fumo do tabaco afecta quase todos os órgãos do corpo humano, designadamente com consequências respiratórias, cardiovasculares (AVC e doença coronária), imunológicas (nomeadamente risco de cancro da boca, da garganta [o cancro oral é o 5.º tipo de cancro mais frequente nos homens e o 7.º nas mulheres, a nível mundial], do esófago, do pulmão, da bexiga, cervical), reprodutivas (risco acrescido de infertilidade), e sociais) nem ingerir bebidas alcoólicas em excesso (é razoável um copo de vinho tinto por dia) (hábitos de risco).

Exercício físico aeróbico e desporto adequados (tratando do corpo e da mente; a actividade física ligeira ou moderada, leve e regular, como acto terapêutico, pode interferir beneficamente nos parâmetros e nas funções imunológicas, podendo corresponder a uma ajuda importante na melhoria das funções imunitárias e consequentemente na melhoria global do doente, na sua reabilitação e/ou na prevenção primária ou “defesa” de infecções, neoplasias, afecções cardio-vasculares ou diabetes, com evidentes ganhos na saúde e menor risco de mortalidade precoce). O exercício físico é uma actividade na qual estão implicados factores psicológicos, neuroendocrinológicos e imunológicos; ALGUM EXERCÍCIO, adaptado às capacidades individuais, é melhor do que nada, CONSTITUINDO UM COMPONENTE FUNDAMENTAL DA TERAPÊUTICA OU REABILITAÇÃO DE MUITAS DOENÇAS QUE DELE BENEFICIAM, O EXERCÍCIO FÍSICO É AINDA MUITO MAIS IMPORTANTE NO CONTROLO METABÓLICO E NA PREVENÇÃO DESSAS MESMAS DOENÇAS!

As metas do combate ao cancro, doenças cardiovasculares e diabetes estabelecidas no Plano Nacional da Saúde 2004/2009 são algumas das que ficaram aquém do esperado, aponta o estudo de balanço realizado pelo Alto-Comissariado da Saúde (ACS).

Contacto com a natureza, com o meio natural.

A necessidade de apanhar sol todos os dias possíveis (que em Portugal são muitos) (com rigoroso cuidado para evitar exposição solar directa exagerada); respirar ar puro!

Dormir o suficiente sem interrupções, preocupações ou dores, isto é, dormir com qualidade.

Por fim: FUGIR da fadiga extrema, ou do stress constante de uma vida muito intensa sem pausas para recuperar, ajudando a manter ou fortalecer o SISTEMA IMUNITÁRIO.

Nutrição + Actividade Física + Exercício + Repouso = Melhor SAÚDE!

Os habituais “Guias de Acolhimento”, fornecidos pelas Unidades de Oncologia, não chegam! É necessário proporcionar abundante esclarecimento e vasta informação, preferencialmente escrita!

A Escola, Grande Promotora de Saúde

A escola (incluindo a universidade), como já foi anteriormente referido, desempenha um papel primordial no processo de aquisição de hábitos de vida saudáveis, facilitando a apropriação de competências individuais essenciais para que os jovens participem activamente na promoção da sua saúde. Do mesmo modo a família, o local de trabalho, os locais de lazer e as unidades de saúde.

O doente oncológico (embora incapacitado, com necessidades especiais) tem de assumir a sua condição de cidadão de pleno direito com todas as consequências no plano dos direitos e dos deveres, em busca de maior e melhor justiça, procurando assegurar uma (sobre) vida com qualidade!

A Coordenação Nacional para as Doenças Oncológicas (do ACS) integra áreas de coordenação nacional, responsáveis por iniciativas e programas considerados prioritários, em termos de ganhos em saúde, e que estão previstos no Plano Nacional de Saúde 2004-2010 e para a sua evolução no Plano Nacional de Saúde (PNS) 2011-2016.

É claro que todos temos direitos, bem como responsabilidades; mas insistir demasiado nos nossos direitos pode constituir um desrespeito pelos direitos dos outros, prejudicando o desejável equilíbrio, a harmonia e igualdade ou não discriminação.

E, na nossa grave doença, não podemos ignorar os demais doentes, as pessoas sujeitas à indiferença, os milhões de seres humanos sujeitos à morte por falta de alimentos, de água e de medicamentos.

Alberto Neves de Melo

4 comentários sobre “Opinião: Doente Oncológico

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  1. É da maior relevância, para o novo PNS, a integração de contributos oriundos de associações de doentes e de utentes do sistema de saúde, bem como a valoração, pelo sistema de saúde, do prestador primordial (na saúde e na doença) que é o cidadão – o “centro” do sistema.
    Trata-se de um recurso inestimável que urge “rentabilizar”.

  2. tenho 35anos sou portadora de cancro maligno, fiz uma masectomia radical, e hoje faço tratamento com hormmnias, sou um a pessoa que me sinto bem e sou feliz
    fiz quimioterapia, nao me senti mal, e tento fazer minha vida da melhor maneira

    • Olá,

      É bom que sinta bem-estar e felicidade… É uma sobrevivente! Tem agora uma doença crónica (cancro ou tumor maligno) para controlar muito bem, com pensamento positivo.

      Obrigado pelo seu testemunho.

  3. A ESCOLA, GRANDE PROMOTORA DE SAÚDE

    Acredito que morrerão menos pessoas antes do tempo (precocemente) se todos, pais, professores, educadores, cada um de nós, ganharmos prematuramente consciência de que não dá prazer nenhum morrer somente por ignorarmos ou menosprezarmos um estilo de vida saudável.

    Somos o que fazemos e também o que comemos! O corpo humano precisa de movimento e de alimentação equilibrada (com um efeito protector na saúde, nomeadamente sobre o risco de diversos tipos de cancro, em particular o do esófago, estômago, cólon e recto e pâncreas).

    As crianças aprendem o que vivem! As atitudes dos pais e educadores – críticas vs condenação, hostilidade vs agressividade, medo vs apreensividade, pena vs pena de si próprias, ridículo vs timidez, inveja vs invejosas, vergonha vs culpa, encorajamento vs confiança, tolerância vs paciência, elogios vs apreciar, aceitação vs amar, aprovação vs gostar de si próprias, reconhecimento vs gostar de ter um objectivo, partilha vs generosidade, honestidade vs verdade, justiça vs ser justas, amabilidade e consideração vs respeito, segurança vs confiar em si próprias e naqueles que as rodeiam, amizade vs o mundo é um lugar bom para se viver – moldam-se ou ajustam-se aos filhos.

    Desde cedo devemos formar as crianças e os jovens para uma vida aberta à realidade, a comunicar, relacionar-se com outras pessoas, a interagir, a não desperdiçar meios, onde o compromisso com a justiça, a solidariedade, a prática da verdade e do amor, da tolerância, não seja mera palavra ou intenção programática, constituindo antes gestos responsáveis e esclarecidos de cidadania activa e atitudes consequentes de assumida concórdia, respeito mútuo. São as crianças e os jovens que terão de percorrer uma nova, longa e difícil caminhada, entre profusas medidas e constantes reformas estruturais tendencialmente positivas.

    A escola (começando na formação dos mais novos, incluindo a universidade), como já foi anteriormente referido, desempenha um papel primordial no processo de aquisição de hábitos de vida saudáveis, facilitando a apropriação de competências individuais essenciais para que os jovens participem activamente na promoção da sua saúde. Do mesmo modo a família, o local de trabalho, os locais de lazer e as unidades de saúde.

    O doente oncológico (embora incapacitado, com necessidades especiais) tem de assumir a sua condição de cidadão de pleno direito com todas as consequências no plano dos direitos e dos deveres, em busca de maior e melhor justiça, procurando assegurar uma (sobre) vida com qualidade!

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