Opinião: Programa Nacional para a Saúde dos Prestadores de Cuidados

30 de Julho de 2010 / 1 Comentário Bookmark and Share

Contributo enviado por Áurea Andrade, Hospital do Arcebispo João Crisóstomo-Cantanhede, 14/06/2010

OpiniaoO membro da família prestador de cuidados é a pessoa que assegura cuidados no domicílio a uma pessoa em situação de dependência, sem remuneração e na maioria das vezes sem qualquer preparação. Surge normalmente da rede de relações do idoso perante a necessidade de cuidados, identificada no domicílio ou até durante uma hospitalização.

A consciencialização da importância do prestador de cuidados surge associada a um dos maiores problemas de saúde pública das sociedades ocidentais modernas, decorrentes do envelhecimento populacional, que é o elevado número, com tendência a aumentar exponencialmente nas próximas décadas, de pessoas dependentes na satisfação das suas necessidades humanas básicas. Este problema, com repercussões aos vários níveis individuais e colectivos, exige da família, principalmente do prestador de cuidados, uma resposta de cuidados no domicílio, difícil , principalmente nesta época em que atravessamos, de grandes dificuldades sócio económicas, com o desemprego como ameaça constante. Vários estudos têm sido realizados nestes últimos anos, com a finalidade de obter um conhecimento mais aprofundado desta personagem e do contexto em que cuida, das suas dificuldades e das suas necessidades. Os autores que se debruçaram sobre esta temática são unânimes em afirmar q  ue o prestador de cuidados familiar é geralmente uma mulher, esposa, filha ou nora da pessoa dependente, com idades superiores a 50 anos, com baixo nível de escolaridade e socioeconómico que cuida por opção própria ou não, de forma abrupta, inesperada e sem preparação nem apoio adequado. A sobrecarga física, psicológica, económica e social a que são sujeitos diariamente, por vezes durante vários anos, torna-o vulnerável a várias doenças, como depressões, doenças osteo-articulares e outras associadas com a falta de cuidado que tem consigo própria a nível da alimentação, da vigilância da sua saúde e do isolamento social a que é sujeita.

As intervenções que vão sendo realizadas com a finalidade de apoiar o prestador de cuidados, quer na vertente social quer na vertente da saúde, continuam a ser insuficientes. Na vertente da saúde resultam de iniciativas individuais dos enfermeiros em contexto hospitalar ou domiciliário, sendo, desta forma, um processo ainda pouco sistematizado. Mesmo a nível de programação do Ministério da Saúde, a referencia ao prestador de cuidados é feita sempre na perspectiva do cuidado ao idoso dependente no domicilio, como recurso sustentável, não havendo um planeamento efectivo, organizado e direccionado à promoção da sua própria saúde.

Neste sentido parece-nos de grande importância a elaboração de um Programa Nacional Para a Saúde dos prestadores de cuidados com a finalidade de melhorar a sua percepção da própria qualidade de vida e a satisfação com o apoio social e de saúde que lhes são prestados, conseguidas através de estratégias direccionadas não só para a sua capacitação para o papel de prestador de cuidados, mas também directamente para a promoção da sua saúde.

Bibliografia de apoio:

  • PETRONILHO, Fernando Alberto Soares – Preparação do regresso a casa. Coimbra: Formasau, 2007. ISBN 978-972-8485-91-7.
  • BRITO, Luísa – A Saúde Mental dos Familiares Cuidadores a Familiares Idosos. Coimbra: Quarteto, 2002. 167 p. ISBN972-8717-19-9.
  • KARSCH, Úrsula. M. Idosos dependentes: famílias e cuidadores. Cad. Saúde Pública, ISSN 0102-311X. Vol.19, nº 3, (2003), p.861-866.
  • NUNES, Isabel; ALVES, Patrícia – As dificuldades sentidas pela família do doente com AVC no domicílio – contributos para melhor cuidar. Cuidar do Doente com AVC. Revista Portuguesa de Medicina Geriátrica, Ano XV. VOL.XV. Nº 153 (2003), p. 10-19.

Áurea Andrade (Enfermeira Directora do Hospital do Arcebispo João Crisóstomo-Cantanhede)

Um comentário sobre “Opinião: Programa Nacional para a Saúde dos Prestadores de Cuidados

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  1. De prestação de cuidados de saúde no próprio domicílio é na actualidade ameaçada pela assimetria dos recursos disponíveis face às necessidades crescentes do envelhecimento da sociedade e também enfraquece da excessiva orientação para o tratamento de doenças prevalentes e da sobrecarga do cuidador. Tal dificulta a incorporação das evidências nos sistemas assistenciais acerca da oportunidade de desempenho/valor da promoção da saúde e estilos de vida saudáveis das Famílias e respectivos cuidadores durante a contratualização/ “accountability” dos Cuidados Domiciliários.

    O único meio de garantir a maturação e relevância desta mudança para o paradigma da Salutogénese nos Cuidados de Saúde Primários, é a sua contratualização através da medição de efectivos indicadores de prevenção da Exaustão do Cuidador (reinternamentos, descanço do cuidador, Respite Care) e Promoção do seu Bem- Estar (autopercepção EuroQol, ex:) para a volição/transição/prossecução e manutenção do seu papel.

    Como tal, este tipo de perspectiva salutogénico focaliza-se, não tanto na resolução imediata dos problemas e da sobrecarga, mas antes na criação de respostas sustentadas de forma a transformar efectivamente a situação das pessoas/cidadãos.

    Reorientando a integração de cuidados não para uma transferência entre serviços/níveis de cuidados mas para uma efectiva criação de valor, qualidade e sustentabilidade. através da diminuição da incapacidade, e melhoria da qualidade de vida das populações.

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