Opinião: Reforço do Apoio Social Comunitário aos Cuidadores Informais

28 de Julho de 2010 / Sem Comentários Bookmark and Share

Contributo enviado por Áurea Andrade, Hospital do Arcebispo João Crisóstomo-Cantanhede, 14/06/2010

OpiniaoNo decurso das nossas actividades realizadas, essencialmente com idosos dependentes, nas unidades de internamento do HAJC, pertencentes à RNCCI, somos levados frequentemente, a reflexões acerca de problemas que afectam os nossos utentes e os seus familiares cuidadores.

Referimo-nos por exemplo ás dificuldades, manifestadas por estes últimos, em poder cuidar dos familiares no seu domicílio, apesar da vontade que tem em o fazer e dos esforços multiprofissionais das nossas equipas de saúde, para os capacitar com conhecimentos e habilidades técnicas. A realidade é que muitos destes cuidadores, com dificuldades económicas, habitualmente filhas ou noras, trabalham, não ficando ninguém em casa que possa cuidar do idoso, enquanto estão ausentes. Outras vezes fica o cônjuge do idoso, cuja condição física inerente ao próprio processo de envelhecimento o tornam incapaz de cuidar adequadamente.

O Serviço de Apoio Domiciliário (SAD), ao assegurar a satisfação das necessidades básicas dos utentes, constitui-se como um bom apoio aos idosos e familiares, permitindo a permanência daqueles no seu meio habitacional. Esta resposta é no entanto insuficiente para as situações acima mencionadas, levando com frequência á institucionalização do idoso ou a complicações de saúde e a reinternamentos hospitalares. Reforçar este tipo de apoio social, promovendo um acompanhamento e cuidado contínuos do idoso, é pois uma medida de grande valor com grandes ganhos para a saúde dos idosos dependentes e dos seus cuidadores.

Localmente e em situações pontuais assiste-se, por vezes, a acções desenvolvidas em parcerias com as diversas entidades da comunidade, geralmente no âmbito de voluntariado, associadas a organizações não lucrativas, que realizam um leque mais alargado de serviços. Não obstante a importância que tem a tomada de esforços integrados e em parcerias, na obtenção de ganhos em saúde de forma sustentável, parece-nos contudo, que estas acções isoladas são insuficientes se atendermos à elevada e crescente percentagem de famílias clássicas portuguesas (32,5%, no censos 2001) que tem ao seu encargo pelo menos um idoso dependente e à percentagem igualmente elevada e crescente de famílias constituídas apenas por 2 idosos (48,1%, no censos 2001).

A responsabilidade na resolução deste problema é transversal às famílias, aos profissionais de saúde, à sociedade em geral e principalmente aos governos com a tomada de medidas politicas, também elas sustentáveis.

Sendo o desemprego uma realidade, cada vez mais ameaçadora, que afectou já milhares de pessoas, maioritariamente mulheres e trabalhadores não qualificados dos serviços e comércio, seria uma boa oportunidade para muitos destes desempregados, integrarem as equipas de serviços de apoio domiciliário após uma adequada formação na área. Por serem detentores de um maior conhecimento das suas comunidades, o poder local estaria mais habilitado ao recrutamento e formação destas pessoas e ao estabelecimento de parcerias com as instituições sociais e de saúde locais. Esta solução permitiria por um lado que os filhos os pais no domicilio e/ou aos cônjuges junto de quem consigo partilhou décadas de vida em comum e por outro abriria portas para a resolução de um problema não menos grave que é o desemprego.

Bibliografia de apoio:

  • PETRONILHO, Fernando Alberto Soares – Preparação do regresso a casa. Coimbra: Formasau, 2007. ISBN 978-972-8485-91-7.
  • BRITO, Luísa – A Saúde Mental dos Familiares Cuidadores a Familiares Idosos. Coimbra: Quarteto, 2002. 167 p. ISBN972-8717-19-9.
  • ERMIDA; J: H – Envelhecimento demográfico, doença e cuidados de saúde. Revista Geriatria. Lisboa. Nº 9 (1996), p.12-24.
  • INSTITUTO NACIONAL DE ESTATISTICA – O Envelhecimento em Portugal: Situação demográfica e socioeconómica recente das pessoas idosas. Revista de Estudos Demográficos. 2002
  • INSTITUTO DO EMPREGO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL – [em linha]. [Consult. 10 Jun. 2010]. Disponível em http://www.iefp.pt/estatisticas/Paginas/Home.aspx

Áurea Andrade (Enfermeira Directora do Hospital do Arcebispo João Crisóstomo-Cantanhede)

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