Opinião: Valorizar a Saúde de Quem Trabalha

25 de Julho de 2010 / Sem Comentários Bookmark and Share

Contributo enviado por António de Sousa Uva, Escola Nacional de Saúde Pública, 11/06/2010

OpiniaoSegundo algumas estimativas, como por exemplo, da Organização Internacional do Trabalho, em cada dia morrem 5.000 trabalhadores como resultado das “doenças ligadas ao trabalho”. Isso corresponde a que morrem, anualmente, cerca de dois milhões de trabalhadores por esse tipo de patologia “ligada” ao trabalho, englobando doenças profissionais e acidentes de trabalho, para além de outras situações clínicas em que o trabalho não é tão determinante como factor etiológico. Dito de outra forma, em cada cinco anos, a nossa população.

Se não for considerado o desfecho mortal daquelas doenças “ligadas” ao trabalho, em cada ano estima-se que ocorram cerca de 270 milhões de acidentes de trabalho que implicam uma incapacidade temporária absoluta (ITA) superior a três dias e 160 milhões de casos de doenças de alguma forma associadas ao exercício da actividade profissional.

Trata-se de números bem mais significativos do que a importância atribuída à “patologia e clínica do trabalho” baseada apenas nos acidentes de trabalho que, tantas vezes, são referenciados nos media.

As mortes atribuídas ao trabalho são fundamentalmente o cancro profissional, e o cancro com diferentes causas em que trabalho é uma delas, as doenças do aparelho circulatório e os acidentes.

De facto, quando se faz referência aos aspectos negativos do trabalho para a saúde é frequente fazer referência apenas aos acidentes de trabalho e/ou doenças profissionais.

Dos cerca de 360 mil acidentes mortais e dos 270 milhões de acidentes de trabalho que se estima que ocorram no mundo, 200 milhões podiam ser evitados se fossem adoptadas as medidas de protecção (colectiva e individual) apropriadas e desses, 300.000 acidentes mortais. Estão em causa por isso aspectos de gestão dos riscos profissionais que são maioritariamente preveníveis à luz do conhecimento técnico e científico actual que, se adoptados, resultariam em ganhos em saúde de grande importância.

Os valores apontados são estimativas da Organização Internacional do Trabalho que, apesar do grau de erro que poderão encerrar, identificam uma situação que justifica que a prevenção daquelas doenças passe a ter uma maior importância do que aquela que lhe é atribuída.

A versão anterior do PNS não reflectiu essa importância.

Em minha opinião, os trabalhos em que o trabalhador é mais desvalorizado e “barato” são os que desvalorizam sistematicamente o homem, e também a sua saúde e segurança. O trabalho parcelizado, “taylorizado”, com poucas exigências de formação e “deslocalizável” com rapidez é um bom exemplo de um sector desvalorizador da saúde e segurança dos trabalhadores.

Os países mais evoluídos em Saúde e Segurança do Trabalho (SST) são os países das economias de mercado e, dentro desses, os países que mais valorizam a sua dimensão social. Bons exemplos disso são alguns países europeus, como a Finlândia ou a Suécia, e países da América do Norte, como o Canadá. Ficaremos sempre na dúvida se são os países ricos que têm melhor SST ou se esses países são mais ricos, também por terem melhor SST.

Serão, no entanto, sempre países em que a vida humana é respeitada e em que as liberdades e garantias dos cidadãos constituem ganhos de cidadania. Um bom programa nacional de Saúde Ocupacional é, portanto, indispensável que faça parte do PNS 2011-2016.

António de Sousa Uva (Escola Nacional de Saúde Pública)

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*