PNCDR: Implicações das Doenças Reumatológicas

27 de Maio de 2010 / Sem Comentários Bookmark and Share

Contributo enviado por Jaime Branco, Coordenador do Programa Nacional Contra as Doenças Reumáticas, 14/05/2010

Opiniao1. Em que áreas e como podem os Portugueses obter mais ganhos em saúde de forma sustentável?

Sobretudo nas áreas que se relacionam com a alteração de atitudes/comportamentos e estilos/padrões de vida, de forma a fornecer uma melhor qualidade de vida (QdV) e a prevenção de doenças crónicas (sobretudo as relacionadas com o consumo de tabaco e drogas, o excesso de sal, açúcar e álcool, bem como com o efeito do stress) dando especial importância à responsabilização individual na gestão da saúde.

Destacam-se:

• legislar sobre concentração de sal e açucares nos vários produtos comerciais

• promover a redução de tabaco e álcool (p.ex. critérios de selecção para, pelo menos, certas actividades profissionais)

• fomentar programas de exercício físico (como importante factor de prevenção de doenças físicas e psíquicas)

• implementar programas eficientes de rastreio e tratamento de doenças crónicas com elevada morbilidade (p.ex. obesidade), mortalidade (p.ex. cancro) e causadoras de incapacidade (p.ex. doenças musculoesqueléticas e cardiovasculares) que afectam a capacidade produtiva do país devido às “baixas” por doença e às reformas antecipadas por invalidez

• informar sobre as verdadeiras indicações para utilização dos Serviços de Urgência

• orientar no sentido da redução do consumo de certos fármacos (p.ex. antibióticos, antidepressivos, ansiolíticos)

Estes objectivos podem ser atingidos através de medidas de baixo custo, alargadas a toda a população, sobretudo a mais jovem (p.ex. recurso aos novos meios de comunicação nas redes sociais da internet), e avaliáveis periodicamente.

O paradigma filosófico da saúde deve afastar-se da prática economicista cega e centrar-se nas boas práticas médicas, únicas capazes de fomentar a “Qualidade em Saúde”.

2. Que expectativas possui relativamente ao Plano Nacional de Saúde (PNS) 2011-2016? Como é que este pode ser útil na obtenção de mais valor em saúde?

As elevadas expectativas esperadas só podem ser alcançadas se a oferta de cuidados for racional e adequada à realidade nacional no que respeita a prevalência e o impacto das várias patologias, o que apenas pode ser realizado através de, por um lado, estudos epidemiológicos e, por outro, registos/notificações verdadeiramente obrigatórios de diagnósticos e tratamentos mais relevantes e também das causas de morte (hoje completamente fictícia e incapaz de ajudar no planeamento).

A rede informática da Saúde facilitará todas estas acções e procedimentos, premiando as boas e evitando as más práticas.

Todas as mudanças de atitude e rotinas devem ser implementadas através da optimização dos recursos humanos da Saúde, intervenientes directos sem a adesão dos quais nada será possível.

Outras medidas essenciais são, por exemplo, a educação para a Saúde (obrigatória nos programas do ensino básico e secundário), boa articulação entre os cuidados de saúde primários e hospitalares, análise de “custo-utilidade/ efectividade” de meios complementares de diagnóstico e tratamentos (farmacológicos e outros) e a aplicação de indicadores vários de efectividade e qualidade.

3. Como é que o PNS 2011-2016 pode apoiar a missão do vosso programa na obtenção de ganhos em saúde de forma sustentável?

Como se afirmou na resposta à questão 1, é necessária uma maior e mais eficiente atenção à área da patologia musculoesquelética para responder, quer ao esperado aumento da sua, já enorme, prevalência, quer ao seu avultado impacto, nomeadamente sobre o aparelho produtivo do país. Assim, é importante:

• implementar uma rede adequada de cuidados reumatológicos no Sistema Nacional de Saúde (SNS) (implica um esforço de formação de novos reumatologistas e a sua distribuição por serviços já existentes mas carenciados e por novos serviços em regiões do país onde não exista ainda este tipo de cuidados)

• formar adequadamente os Médicos de Família/Clínicos Gerais nesta área do conhecimento médico

• agilizar a referenciação precoce e, em tempo útil, para serviços de reumatologia, dos doentes com algumas patologias bem definidas

• racionalizar e tornar justo o acesso a fármacos e outras formas de tratamento comprovadamente eficazes, tendo em consideração a gravidade e/ou impacto funcional da doença reumática e o nível económico do doente em substituição do actual modelo de benefícios dirigidos ao diagnóstico “tout-court”.

• valorizar e premiar as boas práticas (p.ex. harmonizar a articulação reumatologia-fisiatria-ortopedia, apoiar o desenvolvimento das bases de dados da Sociedade Portuguesa de Reumatologia/DGS/Infarmed, afastar os reumatologistas das tarefas médicas não relacionadas com a sua especialidade, como por exemplo, a urgência geral por forma a não dispersar a sua actividade).

4. Como é que os resultados do vosso programa, na obtenção de ganhos em saúde, podem ser percebidos, medidos e valorizados?

Assumindo a criação de uma rede adequada e integrada de reumatologia no SNS, estendida a todo o país, de forma a tornar equitativa a assistência reumatológica a todos os cidadãos, os ganhos em saúde podem ser avaliados como em qualquer outra área.

Apenas alguns exemplos:

• número de consultas e tempo de espera por consulta

• grau de satisfação dos doentes reumáticos com os serviços prestados

• número de reumatologistas e sua distribuição geográfica

• percentagem de terapias biológicas prescritas por reumatologistas versus outras especialidades em relação ao número total de doentes tratados (facilitado pelos registos nas bases de dados referidas na resposta 3.)

• variação temporal dos índices de incapacidade (i.e., “baixas” por doença reumática e reformas antecipadas por doença reumática)

• variação temporal dos níveis de QdV destes doentes

• variação temporal da incidência de fracturas osteoporóticas

• variação temporal da necessidade de cirurgias ortopédicas (p.ex. artroplastias devidas a artropatias inflamatórias)

• variação temporal da mortalidade devida às doenças reumáticas sistémicas (ATENÇÃO: apenas possível se for alterada a actual notificação das causas de morte, ver resposta 2)

• variação temporal da prescrição de AINEs (ATENÇÃO: subtraída a utilização em outras indicações)

• variação temporal do recurso aos serviços de urgência por causa reumatológica

• variação temporal do número de internamentos por causa reumatológica nos hospitais sem valência de reumatologia

• variação temporal dos custos com exames complementares de diagnóstico nos centros com valência de reumatologia, em comparação (case-mix) com centros sem esta especialidade, na abordagem de doentes reumáticos

Jaime Branco (Coordenador do Programa Nacional Contra as Doenças Reumáticas)

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