PNPCD: Prevenção da Diabetes e a Promoção de Saúde

2 de Junho de 2010 / 2 Comentários Bookmark and Share

Contributo enviado por José Manuel Boavida, Programa Nacional de Prevenção e Controlo da Diabetes, 14/05/2010

PNCPCD1. Identificação de áreas de intervenção com potencial para obtenção sustentável de ganhos em saúde

Em Portugal, tal como na maioria dos países, as doenças crónicas constituem a principal causa de mortalidade e de morbilidade e a evidência científica recente aponta para um aumento substancial do seu peso no futuro próximo, sobretudo devido ao aumento de patologias como a Diabetes e a depressão. Estima-se que em 2030 a prevalência da diabetes seja o dobro da prevalência actual no mundo e que aumente 20% na Europa. A diabetes é particularmente frequente em populações envelhecidas, atingindo, segundo o PREVADIAB, 26,3% da população entre 60 e 79 anos. No entanto, atinge idades cada vez mais jovens, aumentando proporcionalmente ao número de pessoas que vivem mais anos e à alteração verificada nos estilos de vida das populações, nomeadamente o sedentarismo e o aumento proporcional da ingestão calórica.

A Organização Mundial de Saúde admite a possibilidade, pela primeira vez nos últimos 200 anos, da inversão da tendência de aumento da esperança média de vida para as novas gerações, provocada pelo efeito de doenças como a obesidade infantil, as doenças cardiovasculares e a Diabetes.

São também as doenças crónicas que originam um maior dispêndio de recursos, calculados entre 60 a 80% dos gastos totais em saúde, considerando apenas os custos directos, uma vez que os indirectos são difíceis de calcular, embora se estimem atingirem valores 3 a 4 vezes superiores aos custos directos.

As complicações devastadoras da diabetes, como a cegueira, a insuficiência renal, as amputações e a morte prematura por doença vascular, representam um forte encargo para os serviços de prestação de cuidados de saúde. De acordo com a Federação Internacional de Diabetes, estima-se que a diabetes absorva entre 5% e 14% do orçamento da saúde de um país.

Em Portugal a Diabetes atinge 11,7% da população entre os 20 e os 79 anos, sendo 6,6% diagnosticada e 5,1% ainda não diagnosticada. A prevalência da pré-diabetes (definida como AGJ – Anomalia da Glicemia em Jejum, TDG – Tolerância Diminuída à Glicose, ou ambas simultaneamente) é de 23,2% da mesma população. Temos, assim, que mais de um terço da população portuguesa nesta faixa etária (34,9%) ou sofre já de Diabetes ou tem já alterações do metabolismo da glicose (hiperglicemia intermédia ou pré-diabetes) que representam uma maior predisposição para o desenvolvimento desta doença.

Fonte: PREVADIAB – Estudo de Prevalência da Diabetes em Portugal, SPD, 2009 A Diabetes era responsável, em 2008, por 4,1% do total dos óbitos registados em Portugal e em 2005 estava na origem de 9,3 anos de vida perdidos antes dos 70 anos no sexo masculino e 8,5 anos no sexo feminino.

Representava, ainda, em 2008, um custo directo na ordem dos mil milhões de euros, ou seja, 7% da despesa total em saúde, em grande medida devido aos elevados custos associados aos internamentos causados pelas suas complicações – retinopatia, nefropatia, neuropatia e macroangiopatia diabéticas O aumento de cerca de 30% da proporção de pessoas com diabetes internadas por AVCs, infartos do miocárdio ou neoplasias, a prevalência de cerca de 30% de pessoas com diabetes em diálise, acompanhado por um aumento exponencial dos custos em medicação, alertam para uma situação que poderá pôr em causa a sustentabilidade dos serviços de saúde se não forem tomadas medidas apropriadas eficazes Sendo a Diabetes, em grande medida, uma doença prevenível, em que muitos dos seus factores de risco – estilos de vida, obesidade, HTA, dislipidemia, consumo de álcool e de tabaco – são comuns a outras patologias, como as doenças cardiovasculares e vários cancros, a necessidade de estratégias preventivas das doenças crónicas torna-se uma premência absolutamente prioritária para o PNS.

A evidência científica disponível demonstra que a intervenção na prevenção da doença é custo-efectiva, e que a alteração duradoura ao nível dos hábitos alimentares e da actividade física é eficaz na prevenção da Diabetes tipo 2, mesmo nas populações identificadas como de risco elevado para o desenvolvimento da doença.

Para que estas intervenções sejam eficazes, terão que ser desenvolvidas ao nível populacional, e exigem a integração das políticas de promoção e prevenção da saúde no mainstreaming das diferentes políticas sectoriais – trabalho, educação, transportes, urbanismo, fixação de preços para produtos alimentares, de regras para a respectiva publicitação, etc.

A identificação precoce da doença e o seu tratamento de acordo com as melhores práticas clínicas, tem demonstrado ser eficaz na prevenção ou no adiamento das complicações da Diabetes.

A dimensão que a Diabetes assume e a natureza das intervenções que exige aos diversos níveis – primário, secundário e terciário – implica uma mudança de paradigma na organização da prestação dos cuidados de saúde em Portugal, que se baseia ainda, predominantemente, na intervenção na doença aguda.

Emerge, assim, a importância do primado efectivo do papel dos cuidados primários na gestão das pessoas com diabetes, da agilidade da articulação entre os cuidados primários e os cuidados diferenciados (e também com os cuidados continuados), e da co-responsabilização dos doentes no auto-controlo do seu próprio processo de cuidados.

Finalmente, importa referir o que constitui um alerta das instituições de saúde em todo o mundo e que se relaciona com a urgência na intervenção sobre a expansão exponencial da Diabetes. Com efeito, é reconhecido que sem o desencadear de acções imediatas e à escala populacional será impossível travar o crescimento desta pandemia, que de forma insidiosa se tem propalado, ameaçando as conquistas na saúde obtidas no último século, necessitando de serem trazidos à acção novos parceiros como as escolas, os municípios e a organização do trabalho.

2. Como pode o PNS 2011-2016 ser útil na obtenção de mais valor em saúde e apoiar a missão do Programa Nacional de Prevenção e Controlo da Diabetes na obtenção de ganhos em saúde de forma sustentável?

Decorre do ponto anterior que a integração no PNS da intervenção na área da Diabetes, concretamente das acções preconizadas no âmbito do Programa Nacional de Prevenção e Controlo da Diabetes e dos seus indicadores (ao invés do que se verificou na anterior versão do PNS) contribuiria para potenciar a obtenção de significativos resultados em saúde.

Sendo o PNS um documento orientador da intervenção em saúde em Portugal, comporta uma dimensão de transversalidade entre as diversas áreas de actuação que é fundamental na configuração de uma visão global da intervenção no sector.

Esta visão transversal e global proporcionada pelo PNS constitui ainda um locus privilegiado para a ancoragem de uma desejável articulação e integração entre as estratégias dos diferentes sectores e níveis de cuidados, a respectiva monitorização de resultados e a articulação da intervenção no âmbito da obesidade, da hipertensão e doença cardiovascular, do cancro e da diabetes ao nível da prevenção primária.

3. Monitorização e valorização de resultados do PNPCD na obtenção de ganhos em saúde

O PNPCD tem vindo a investir, ao longo dos dois últimos anos, na constituição de uma base de informação que lhe permita conhecer a realidade da Diabetes em Portugal, de modo a adequar as suas estratégias de intervenção à situação concreta, tanto nacional como regional.

Assim, colaborou na realização do Estudo de Prevalência da Diabetes em Portugal, editado em 2009, apoiou a constituição do Observatório Nacional da Diabetes (a funcionar no âmbito da Sociedade Portuguesa de Diabetologia) e a edição da publicação anual “Diabetes: Factos e Números (2009) ”, bem como promoveu a realização do DiaComp – Estudo de monitorização da implementação regional e nacional de rastreio sistemático e tratamento da retinopatia e nefropatia diabéticas e dos cuidados ao pé diabético.

A execução do Programa é monitorizada através do apuramento anual de uma bateria de dezanove indicadores que abrangem diferentes áreas de actuação (desde a prevenção e diagnóstico precoce, ao tratamento e prevenção das complicações). Estes indicadores cobrem tanto processos como resultados e impactos, sendo apurados a partir de diversas fontes dos sistema de informação da saúde (disponibilizadas por instituições como a ACSS, a DGS, o INFARMEDd, etc.) podendo alguns deles serem incorporados na monitorização do PNS.

O Programa considera ainda fundamental, na melhoria da abordagem à Diabetes por parte do sistema de saúde em Portugal, a contratualização de objectivos específicos relativos a esta patologia com as estruturas prestadoras de cuidados. É assim que pretende colaborar no processo de contratualização com as estruturas de cuidados primários no que à componente da Diabetes diz respeito, tanto ao nível das USF como dos ACES e ULS.

O Programa encontra-se ainda empenhado na constituição de uma estrutura de responsáveis pela Diabetes aos diferentes níveis das organizações de prestação de cuidados, bem como na sua articulação local e regional, com o objectivo de assegurar uma efectiva integração dos cuidados prestados às pessoas com diabetes e prosseguir a melhoria dos cuidados no âmbito do sistema de saúde.

Documento de apoio:

José Manuel Boavida (Coordenador do Programa Nacional de Prevenção e Controlo da Diabetes)

2 comentários sobre “PNPCD: Prevenção da Diabetes e a Promoção de Saúde

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  1. Caro colega
    Dr. José Manuel Boavida

    Antes de tudo queria agradecer-lhe a gentileza de me ter enviado o livro “Pé Diabético
    caminhando para um futuro melhor”.
    Confesso que o li com entusiasmo e muita atenção. Gostei particularmente do capítulo 16. Vê-se que quem o escreveu tem o tema bem digerido e apresenta-o de forma simples e clara. Nele ressalta a necessidade de estratificar o risco de contrair uma úlcera porém depois ficamos por aí…Talvez seja altura de o SNS assumir a responsabilidade de criar Centros de Referência com técnicos habilitados para a prescrição do calçado adequado e comparticipar as tais “palmilhas especiais e o tal calçado adequado” pois seria mais barato do que tratar a úlcera e as suas complicações que muitas vezes acabam em amputações.
    Não podemos esquecer que muitos destes doentes são idosos e com parcos recursos económicos que lutam no dia-a-dia pela sobrevivência.
    No que respeita ao capitulo 15 “Cirurgia no pé diabético” é menos claro, nomeadamente no tocante à drenagem. A infecção profunda na maioria das vezes, na minha experiência, não se apresenta sob a forma de abcesso mas antes de fleimão que a quando da drenagem o que encontramos é uma necrose dos tecidos que apenas drena uma serosidade sero-hemática, sobretudo quando esta infecção é provocada por MRSA que infelizmente cada vez é mais frequente entre nós.
    A drenagem é EMERGENTE no momento em que vemos o doente. Não há desculpa para atrasar o procedimento porque o alívio da dor pela descompressão compartimental é superior à dor da pressão e incisão da lamina do canivete, por isso deve ser feito de imediato na Consulta ou no Serviço de Urgência e não diferir para o dia seguinte no serviço porque pode ser tarde para salvar o membro. Esta drenagem tem de ser orientada pela localização da úlcera porque é diferente se a lesão é no 1º ou no 4º dedo por exemplo, sobretudo nas fases iniciais e, deve ser ampla para descomprimir o compartimento profundo do pé.
    Um ponto que considero da máxima importância e que não vi referido é a colheita de material para bacteriologia e TSA, quando se faz a drenagem, para posterior orientação terapêutica.
    Apesar destas críticas, que espero construtivas, felicito a APDP pela publicação deste livro que em boa verdade merecia maior divulgação e, mais uma vez agradeço a gentileza de me o ter enviado.
    José Neves

  2. O Programa tem um conteúdo excelente e, se forem concedidas condições suficientes para a sua implementação prática, será um dos melhores da Europa.
    Todos serão poucos para combater tal calamidade; será necessário envolver a população nesta luta contra os estilos de vida não saudáveis que são responsáveis pela prevalência crescente da obesidade e da diabetes tipo 2.

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