Universidade do Minho: Saúde Escolar

27 de Março de 2010 / 1 Comentário Bookmark and Share

Contributo enviado por José Precioso, Universidade do Minho, 18/03/2010

Universidade do MinhoA Necessidade de Revitalizar e Reorganizar a Saúde Escolar

Prevenir, diagnosticar, encaminhar e tratar

 

 

Os resultados da investigação sobre a saúde das crianças e dos adolescentes, realizados nos últimos anos, permitem concluir que as ameaças à sua saúde advêm sobretudo da sua conduta. São considerados comportamentos prejudiciais à saúde, entre outros: o consumo de tabaco, de bebidas alcoólicas e de outras drogas; a condução sob o efeito de álcool; a não utilização de métodos seguros de protecção das doenças sexualmente transmissíveis; o consumo de alimentos ricos em gordura e açúcares e o sedentarismo.

A escola é um dos locais (embora longe de ser o único) e a Educação para a Saúde (EpS) o meio que muito pode contribuir para a promoção de comportamentos saudáveis nos futuros cidadãos. A UNESCO e a Oficina Internacional de Educação e da Saúde recomendam que “a saúde se deve aprender na escola da mesma forma que todas as outras ciências sociais”. O aluno deve aprender, na escola, os conhecimentos científicos que lhe permitirão alcançar o maior grau possível de saúde, física, mental e social.

Em Portugal, constata-se um aumento da preocupação política com as questões da Educação para a Saúde em meio escolar.

O Grupo de Trabalho para a Educação Sexual (GTES), “incumbido de proceder ao estudo e de propor os parâmetros gerais dos programas de educação sexual em meio escolar, na perspectiva da promoção da saúde escolar”, produziu um relatório com várias recomendações sobre a forma como a EpS devia ser implementada na escola, ou seja, sobre o que deve ser ensinado, como, por quem e quando deve ser ensinado.

Apesar de todo o esforço para tentar revitalizar a implementação da EpS na escola, esta apresenta ainda muitas deficiências, 1) no que respeita aos temas abordados, 2) à forma como são tratados, 3) à falta de continuidade, 4) à (in)acessibilidade.

Para que a EpS tenha uma implementação eficaz e generalizada, continua a ser necessário garantir: a cobertura, ou seja, que todas as escolas dedicam igual importância a todos estes temas; a acessibilidade, ou seja, que todos os alunos são abrangidos por ela, e a globalidade, ou seja, que todos os temas de saúde e não apenas alguns, são tratados nas alturas adequadas. Para que isso seja uma garantia de todos os estudantes, é preciso organizar este “serviço” a que todos os alunos têm direito. As vias pelas quais a EpS tem sido implementada na escola (“infusão” de tópicos de saúde em todas as disciplinas, sobretudo as de ciências naturais – mas não só -; a sua abordagem como uma área transversal e na área de projecto) não têm garantido a acessibilidade de todos os alunos a este direito.

Face ao exposto, apresentaremos de seguida uma série de sugestões para tornar a EpS mais eficaz e acessível aos alunos.

 

1. Elaboração de um plano nacional de prevenção para as doenças relacionadas com os comportamentos.

Já existe em Portugal um plano nacional de prevenção para as doenças infecciosas a funcionar em pleno. Com o actual plano Nacional de Vacinação, garante-se que praticamente todos os alunos tomam as vacinas e os respectivos reforços, na idade certa. Com base nesta analogia, é necessário criar um plano nacional de prevenção para as doenças relacionadas com os comportamentos. É preciso organizar a EpS de forma a que todos os alunos sejam “vacinados”, por exemplo, contra o tabagismo, o alcoolismo, as drogas, o sedentarismo, etc., na idade certa, e lhes sejam ministrados os “reforços” ao longo do ciclo escolar. Já existem “vacinas” e “reforços” para alguns destes problemas, como por exemplo o tabagismo. O que é preciso é aplicá-los e fazer o mesmo em relação a outros comportamentos de risco para a saúde.

2.Criação de uma disciplina de EpS.

Em países como a Finlândia, as ciências da saúde foram adoptadas como um tema obrigatório em todas os níveis escolares. Os alunos aprendem noções de biologia humana (anatomia, fisiologia e metabolismo), bacteriologia e imunologia, nutrição, ergonomia, ciências do exercício físico, pato-fisiologia, farmacologia, toxicologia, saúde pública e educação sexual, auto-cuidados e promoção de saúde. As disciplinas de EpS são leccionadas pelos professores de Biologia e de Educação Física. A vantagem de uma abordagem disciplinar é garantir que todos os alunos recebem uma formação mínima em todos os temas relacionados com a saúde. Preconizamos a criação de uma disciplina de EpS para garantir que, pelo menos, os conteúdos mínimos sobre saúde sejam abordados. Uma limitação a esta sugestão, é o facto de os alunos já terem muitas disciplinas no currículo. Uma solução para reduzir o seu número é fazer a fusão de disciplinas como a História e Geografia, a Física e Química e as Ciências da Natureza e eliminar outras, como o estudo acompanhado (competência do professor da disciplina).

 

3.Transversalidade.

Para além da criação de uma disciplina de EpS, defende-se a transversalidade como via para implementar a EpS. O Ensino da Língua materna é um bom exemplo de como a EpS pode ser implementada. O ensino do Português faz-se numa disciplina específica, mas recomenda-se que todas as outras contribuam, para o reforçar. Além disso há um programa e materiais de apoio para professores e alunos, o que facilita a sua tarefa. Não é suficiente preconizar a “reorganização e revitalização dos curricula das disciplinas do 1.º, 2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico na perspectiva da Educação para a Saúde”. São necessárias orientações mais específicas e materiais de apoio aos professores para a abordagem de outros temas de saúde. Nenhum professor lecciona uma disciplina tradicional com meras orientações. É preciso um programa mais detalhado e materiais de apoio (livros, fichas de trabalho, etc.). É preciso definir um currículo de EpS, ou seja, dizer o que deve ser ensinado, em que disciplina e de que forma, como já foi feito, e bem, em relação à Educação Sexual (apesar de muitos políticos, porventura menos informados, continuarem a insistir na criação de uma disciplina de Educação Sexual, sendo há muito consensual que este deverá ser apenas um tópico da EpS). Agora, é urgente fazer o mesmo para todos os temas de EpS.

 

4.Necessidade de formação de professores

A EpS exige formação de professores. Se existirem professores a quem esta tarefa é destinada, será mais fácil organizar a formação inicial e contínua e ter um corpo docente competente para ensinar estes temas. Defendemos, por isso, que deve ser criada uma disciplina de EpS, de carácter obrigatório nos curricula do Ensino Superior, sobretudo dos cursos de formação de professores.

5.Diagnóstico precoce e tratamento.

A significativa prevalência de comportamentos de risco nos adolescentes, como o consumo de tabaco, de bebidas alcoólicas, de drogas ilícitas, os casos de obesidade, entre outros problemas de saúde apresentados pelos alunos, faz com que a escola – e os seus intervenientes, dos quais se destaca o papel dos professores – seja um local privilegiado para 1) detectar; 2) referenciar; 3) encaminhar. A principal vocação da escola é a prevenção primária. No entanto, não se pode descurar a prevenção secundária (tratamento) e até terciária (evitar as recaídas). É preciso que a escola se envolva em curar e tratar as doenças do comportamento.

Os professores, pelo tempo dispendido com os alunos, são os elementos com mais probabilidade de poder fazer uma sinalização dos casos problemáticos. Deverão ser sistematizados os procedimentos de detecção e referenciação de casos problemáticos relacionados com a saúde (obesidade, asma, problemas auditivos, visuais, alcoolismo, etc.), para os serviços adequados. Isto já acontece em parte, em escolas com Serviços de Psicologia e Orientação, mas não existe uma “norma geral de referenciação” para ajudar os professores a fazer esta detecção e encaminhamento.

6.Envolvimento dos pais.

Todos os estudos revelam uma forte relação entre os comportamentos de risco dos pais tais como fumar, consumir bebidas alcoólicas, etc., e os dos filhos, sendo este um indicador da necessidade de envolver os pais/encarregados de educação em determinadas componentes do programa, de forma a oferecer uma resposta mais integrada.

É necessário envolver os pais, sendo que uma via para o fazer é através das crianças. O projecto “Domicílios Livres de Fumo” é um exemplo. Neste projecto pretende-se, com várias acções dirigidas aos alunos, desenvolver nas crianças o seu poder de persuasão para que, em casa, convençam os pais ou outros conviventes, a não fumar no domicílio e/ou no carro.

7.Formação parental em EpS.

A formação parental em EpS pode ser feita durante as reuniões com os Directores de Turma, ou em cursos organizados pelas escolas. Algumas escolas fizeram isso em relação à prevenção da Gripe A.

8.Observatório em EpS.

As escolas devem dispor de um Observatório de Saúde Escolar, pois só a partir do conhecimento da realidade intrínseca a cada escola, se podem elaborar respostas adequadas e intencionais para os problemas detectados. Este conhecimento seria o fundamento da tomada de decisão sobre os problemas prioritários em cada escola; os objectivos, as estratégias de intervenção e a avaliação da sua implementação. Para além da dimensão curricular, é preciso também criar ambientes de apoio na escola, envolver a família e os Centros de Saúde, para garantir a criação de uma Escola Promotora de Saúde.

 

9.Criação de um grupo de trabalho para reorganizar a EpS.

A reorganização da Educação para a Saúde na escola é uma tarefa complexa e que exige a criação de um grupo de especialistas ligados à saúde, à educação, à psicologia. Para melhor dar cumprimento à missão de organizar o “plano de vacinação”, este grupo deve integrar especialistas por área, como por exemplo: doenças sexualmente transmissíveis, tabagismo, alcoolismo, segurança rodoviária, entre outras, que terão como missão definir o método, as estratégias e os recursos para a implementação da EpS nas escolas, nomeadamente a definição de temas, quando e como é que estes devem ser ensinados/trabalhados.

 

 

10.Melhorar a cooperação/articulação entre os serviços de saúde e a escola.

É necessário que os profissionais da educação tenham competência para diagnosticar os problemas de saúde nos alunos. Por outro lado é preciso que os serviços de saúde tenham capacidade para tratar os alunos que possam ser identificados. Os professores devem dedicar-se sobretudo à prevenção primária, ao diagnóstico e reencaminhamento. Os profissionais de saúde devem complementar a formação dos professores, cooperar no diagnóstico de algumas patologias ou problemas de saúde e tratar os alunos que lhes são remetidos. É preciso melhorar a articulação entre as escolas e os gabinetes de Saúde Escolar dos Centros de Saúde; criando um sistema multidisciplinar organizado, de forma a dar resposta aos problemas de saúde que lhes são colocados, designadamente, através do reencaminhamento de alunos com problemas de saúde, detectados na escola.

José Precioso1, José Manuel Calheiros2, Manuel Macedo3, Catarina Samorinha4 e Henedina Antunes5

 

  1. Docente e investigador na Universidade do Minho (Professor Auxiliar)
  2. Docente e investigador na Universidade da Beira Interior (Professor Catedrático)
  3. Médico pneumologista no Hospital de S. Marcos- Braga
  4. Psicóloga e investigadora na Universidade do Minho
  5. Médica pediatra no Hospital de S. Marcos- Braga

Um comentário sobre “Universidade do Minho: Saúde Escolar

Comentar ou contacte-nos via Twitter @pns

  1. Concordo plenamente. É, de facto, urgente a formação nesta área de educadores/professores. Há que rever planos de estudos de alguns cursos do 1º ciclo e integrar o Ensino Superior nas parcerias estabelecidas entre os Ministérios da Saúde e da Educação.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*