USF Monte Caparica: Gravidez na Adolescência

21 de Abril de 2010 / Sem Comentários Bookmark and Share

Contributo enviado por António varela, Unidade de Saúde Familiar Monte da Caparica, 08/04/2010

unidade de saude familiar monte da caparicaA prevenção primária da gravidez na adolescência (e o seguimento dos filhos nascidos de raparigas muito jovens) é uma grande preocupação para muitos dos que trabalham nos Cuidados de Saúde Primários e é sobre esta temática que nos vamos centrar o nosso contributo.

Gravidez na Adolescência – Prevenção Primária

(Projecto personalizado de colaboração entre a Santa Casa da Misericórdia de Almada e a USF Monte de Caparica)

Falar de prevenção implica abordar o planeamento, implementação e avaliação de programas destinados aos indivíduos e à comunidade em geral.

Existem dois níveis de intervenção profilática – a comportamental e a contextual. A acção preventiva envolve sempre um conhecimento teórico, prático e profissional aprofundado (e prévio) do desenvolvimento do(a) adolescente e dos problemas comunitários envolvidos no desencadeamento do fenómeno (Keating, 1986; Aplan, 1980). Não basta compreender o comportamento dos adolescentes; é preciso compreender também as questões sociais, económicas, políticas e administrativas inerentes ao mesmo. É na comunidade que encontramos representantes formais para ajudar a enfrentar as crises, mas é também aí que surgem os não menos importantes representantes informais. A família, os colegas, os professores, os médicos, os enfermeiros, os psicólogos e os assistentes sociais têm um papel a desempenhar.

Pensando particularmente na prevenção primária da gravidez na adolescência, são recomendados vários meios, incluindo a educação sexual nas escolas, a disponibilização gratuita aos jovens de serviços contraceptivos, a distribuição gratuita de contraceptivos aos estudantes (com ou sem o consentimento dos pais), a preconização de uma maior abertura entre pais e filhos para falarem sobre o sexo, e a utilização dos meios de comunicação social para uma maior informação sobre práticas sexuais responsáveis e sobre a contracepção.

O projecto personalizado de colaboração entre a Santa Casa da Misericórdia de Almada e a USF Monte de Caparica tem dimensão pedagógica e é realizada para estimular os valores positivos da sexualidade. Pretende mobilizar recursos humanos ao nível da comunidade, reforçando e desenvolvendo actividades no sector da saúde. Trata-se de um nível de intervenção entre técnicos de saúde e pequenos grupos de jovens mais expostos aos factores de risco da comunidade.

Eis o essencial desta intervenção:

1) Aplicação de um questionário de avaliação de conhecimentos no início e no final da intervenção;

2) Promoção da saúde física e mental do(a) adolescente e do seu bem-estar;

3) Informação/ensino sobre planeamento familiar, que vai muito além da contracepção (uma coisa é saber, outra é pôr em prática). É dada informação sobre os riscos que uma gravidez na adolescência acarreta, nomeadamente na saúde da jovem e na do futuro bebé, procurando assim influenciar o comportamento das adolescentes de forma a
melhorar a sua saúde em matéria de reprodução.

Panorama da Prevenção Primária no Centro de Saúde

Nas últimas duas décadas, um grande número de Centros de Saúde tem vindo a fornecer consultas de Planeamento Familiar, de acesso livre e gratuito, sem limite de idade. No entanto, alguns Médicos de Família e Unidades de Saúde sentiram necessidade de criar uma consulta de Adolescentes por forma a atenderem os seus utentes fora do contexto
do Médico de Família, uma vez que este factor poderia inibir a procura de apoio (afinal, o Médico de Família tem contacto directo com a mãe e o pai…). O tema da sexualidade ainda visto como um tabu e, sendo a sexualidade adolescente vivida, em alguns casos, de uma forma clandestina, seria importante assegurar aos jovens um espaço de confidencialidade.

Actualmente, a maioria do(a)s adolescentes já vem descontraída à consulta de Planeamento Familiar, verificando-se frequentemente as seguintes situações:

  • vem um(a) único(a) adolescente (alguém com mais iniciativa) para esclarecer as dúvidas do grupo de amigo(a)s
  • vem com a mãe que, normalmente, até é quem toma a decisão de marcar uma consulta para o filho ou filha; muitos pais querem que os filhos, antes de iniciarem a sua vida sexual, venham a uma consulta para esclarecerem todas as dúvidas que têm e para obter informação sobre os métodos e as doenças sexualmente transmissíveis, a fim de a iniciarem mais atentos e esclarecidos.
  • vem com o(a)s amigo(a)s da escola.
  • vem com o(a) namorado(a).

Muitas vezes, o problema não é a falta de informação, mas a incapacidade de se comportarem de acordo com essa informação. Lá por saberem que têm de usar o preservativo, não quer dizer que o usem. Normalmente, somos nós que praticamente “impingimos” o preservativo normalmente associado a contracepção oral. Poucos jovens se preocupam em simultâneo com a gravidez e as doenças sexualmente transmissíveis.

Na nossa USF, a idade dos jovens que costumam ir às consultas de Planeamento Familiar é muito variável; temos utentes desde os 13 anos de idade, o que não quer dizer que não venham alguns com idade inferior. Contudo, quem mais comparece nestas consultas são as raparigas, numa percentagem diferencial bastante significativa.

Não temos muitos casos de mães adolescentes, mas apesar de saberem que existe a interrupção voluntária da gravidez, normalmente as jovens, entre os 16 e os 17 anos de idade, decidem assumir a gravidez.

Américo Varela (Coordenador da Unidade de Saúde Familiar Monte de Caparica)

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